sábado, 30 de janeiro de 2010

Pessoa feliz é quem aceitou a morte...Sou o contemporâneo de amanhã.

"Ser feliz é uma responsabilidade muito grande. Pouca gente tem coragem. Tenho
coragem mas com um pouco de medo. Pessoa feliz é quem aceitou a morte. Quando
estou feliz demais, sinto uma angús­tia amordaçante: assusto-me.Eu me dou melhor comigo mesmo quando estou infeliz: há um encontro. Quando me sin­to feliz, parece-me que sou outro. Embora outro do mesmo. Outro estranhamente alegre, esfuziante, levemente infeliz é mais tranquilo.Sou o contemporâneo de amanhã.Quando fico sozinho muito tempo, eu de repente me estranho e me assusto e me arrepio todo em mim. De agora em diante eu quero mais do que enten­der: eu quero superentender, eu humildemente imploro que esse dom me seja dado. Eu quero entender o pró­prio entendimento. Eu quero atingir o mais íntimo se­gredo daquilo que existe. Estou em plena comunhão com o mundo.Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos. O futuro me chama danadamente - é para lá que eu vou. Desastre? Sei lá. Quando penso que um dia vou morrer me dobro em dois de tanto rir. A vida é uma piada. Mas meu rumo certo todos sabem qual é. Não aprendi mas sei. Enquanto escrevo pingam os minutos irreversíveis. É o Tempo passando. Eu penso alto. Quem me ouve? Olho para a cara da pessoa e vejo: ele vai morrer. Esta noite tive um sonho dentro de um sonho.Sonhei que estava calmamente assistindo artistas trabalharem no palco.E por uma porta que não era bem fechada entraram homens com metralhadoras e mataram todos os artistas. Comecei a chorar: não queria que eles estivessem mortos. Então os artistas se levantaram do chão e me disseram: nós não estamos mortos na vida real, só como artistas, fazia parte do show esse morticínio. Então sonhei um sonho tão bom:sonhei assim: na vida nós somos artistas de uma peça de teatro absurdo escrita por um Deus absurdo. Nós somos todos os participantes desse teatro: na verdade nunca morremos quando acontece a morte. Só morremos como artistas. Isso seria a eternidade? Sei lá, sei apenas que gosto de brilhantes e de jade. Não pense que escrevo aqui o meu mais íntimo segredo pois há segredos que não revelo: há muitos segredinhos primários que eu deixo que se mantenham em enigma. Entrego-me ao doce convívio da eternidade. Mas esta eu não sei se mereço.
Há velhos que morrem na primavera, não aguen­tam a arrebentação da terra.Eu quero uma morte elegante. Aliás já morri e não soube. Sou o meu fantasma inquietante.Uma ânsia. Queria poder viver tudo de uma só vez e não ficar vivendo aos poucos. Mas aí viria a Morte.Quando eu morrer não saberei o que fazer de mim.Deve haver um modo de não se morrer, só que eu ainda não descobri. Pelo menos não morrer em vida: só morrer depois da morte.O mundo está ficando cada vez mais perigoso para mim. Depois de morto, cessará o perigo periclitante. Respirar é coisa de magia.Quero que meu fim seja tão inevitável como a morte: o meu fim na vida será possuir.Eu sou virgem.Eu quase que já sei como será depois de minha morte. A sala vazia o cachorro a ponto de morrer de saudade. Os vitrais de minha casa. Tudo vazio e calmo.Na hora de minha morte — que é que eu faço? Me ensinem como é que se morre. Eu não sei.E agora sou obrigado a me interromper porque. Ângela interrompeu a vida indo para a terra. Mas não a terra em que se é enterrado e sim a terra em que se revive. Com chuva abundante nas florestas e o sussur­ro das ventanias.Quanto a mim, estou. Sim."Eu... eu... não. Não posso acabar."Eu acho que...

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