sábado, 27 de março de 2010

Chaya Lispector: o outro lado de Clarice

"Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria." (Clarice Lispector)
Se estivesse em vida corpórea, Chaya estaria completando 90 anos (10/12/1920 depois de 09/12/1977).

Chaya que em hebraico significa ‘vida’ – e que também tem a apropriada conotação de “animal” é o verdadeiro nome de Clarice Lispector. Nome que a escritora de Felicidade Clandestina fez questão de ocultar.
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"Há tantos anos me perdi de vista que hesito em procurar me encontrar. Estou com medo de começar. Existir me dá às vezes tal taquicardia. Eu tenho tanto medo de ser eu. Sou tão perigoso. Me deram um nome e me alienaram de mim."


Deixo o meu aplauso em escrita homenageando (de forma singela) a escritora que expôs em sua obra a alma de uma mulher só, mas que interiormente encontramos toda a gama da experiência humana em seus escritos: nativa e estrangeira, judia e cristã, bruxa e santa, homem e lésbica, criança e adulta, animal e pessoa, mulher e dona de casa: “eu sou vós mesmos”.

"Não ler o que escrevo como se fosse um leitor. A menos que esse leitor trabalhasse, ele também, nos solilóquios do escuro irracional. Se este livro vier jamais a sair, que dele se afastem os profanos. Pois escrever é coisa sagrada onde os infiéis não têm entrada. Estar fazendo de propósito um livro bem ruim para afastar os profanos que querem "gostar". Mas um pequeno grupo verá que esse "gostar" é superficial e entrarão adentro do que verdadeiramente escrevo, e que não é "ruim" nem é "bom". A inspiração é como um misterioso cheiro de âmbar. Tenho um pedacinho de âmbar comigo. O cheiro me faz ser irmã das santas orgias do Rei Salomão e a Rainha de Sabá. Benditos sejam os teus amores. Será que estou com medo de dar o passo de morrer agora mesmo? Cuidar para não morrer. No entanto eu já estou no futuro. Esse meu futuro que será para vós o passado de um morto. Quando acabardes este livro chorai por mim um aleluia. Quando fechardes as últimas páginas deste malogrado e afoito e brincalhão livro de vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acaba bem. Para enfim eu ter repouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e entre mim. Estou caindo no discurso? Que me perdoem os fiéis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar."

Um comentário:

Anônimo disse...

Estou em 2019